O que a compaixão feroz e o autoconhecimento têm a ver com (des)polarização?

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Como dialogar com quem pensa diferente de nós e quais competências são necessárias para isso? No episodio 9 do nosso podcast E Agora, Josefina? tentamos responder a essas questões em um bate-papo com Carol Nalon, especialista em Comunicação Não-Violenta e fundadora do Instituto Tiê, e Elis Motta, do Instituto NOW.

A partir da experiência do Instituto NOW com competências socioemocionais e de Carol Nalon com mediação de conflitos, fizemos uma ponte para pensar também a (des)polarização da sociedade.

Durante a conversa, Carol nos apresentou o conceito de “compaixão feroz”, do psicólogo clínico estadunidense Chris Germer. Em um artigo publicado recentemente e que pode ser conferido na íntegra aqui (em inglês), Germer parte do clima social e político dos EUA atual para propor a “compaixão feroz” como uma resposta aos nossos tempos. No texto, ele reflete sobre qual papel costumamos ter (e qual papel queremos ter) em situações de injustiça – seja pessoal ou social, que nos digam respeito diretamente ou não.

Ter noção disso é importante porque o modo como agimos nessas situações nos diz do quanto somos cúmplices das estruturas sociais de violência e opressão, mas também da nossa postura individual para criar um mundo melhor.

Mas o que é exatamente a compaixão feroz e como saber se estamos mesmo a pondo em prática?

A compaixão costuma ser exaltada na sua dimensão gentil, que conforta, conecta  e valida a dor do outro. No entanto, para agir a favor da justiça social, a compaixão precisa ter um lado feroz, que inclui as qualidades de força, coragem e até mesmo raiva para transformar o mundo desigual que vivemos.

Germer propõe um exercício de reflexão que podemos fazer sempre que nos encontramos diante de uma situação de injustiça, e que consiste em responder a seis perguntas:

  • Sou controlada pela minha raiva?
  • Eu me sinto moralmente superior?
  • Eu quero que meu adversário sofra?
  • Estou disposta a tomar as medidas necessárias?
  • Estou curiosa sobre a experiência de outras pessoas?
  • Estou disposta a sentir a dor das outras pessoas como se fosse minha?

 

“A não-violência e a compaixão têm um posicionamento político muito marcado, que é justamente o da não-violência e da compaixão. Eu não vou ser complacente. Eu vivo numa sociedade racista, eu sou racista e estou disposta a mudar isso. Um ser realmente compassivo tem coragem de se posicionar nessa situação” –

Carol Nalon, no E Agora, Josefina?

 

Tanto o desafio de se posicionar de modo não-violento em um mundo onde a opressão é sistêmica, quanto o de dialogar com quem pensa diferente de nós, exigem uma mudança na forma como olhamos para as outras pessoas e para nós mesmas. Ou seja, exigem um autoconhecimento profundo.

Longe de ignorar as diferenças, tal movimento pede que demos o peso devido aos contrastes, sem desconsiderar o que há de comum entre todes nós e o que nos conecta.

Se numa situação de conflito ou de polarização, você costuma estar no lugar de explicar o que leva as pessoas a fazerem o que elas fazem, sem antes se questionar como você costuma agir nas mesmas situações, é importante se observar um pouco mais.

Isso porque a racionalidade com que tentamos entender o modo como as outras pessoas agem se mostra insuficiente tão logo tentamos descrever com fidelidade e honestidade o porquê de nós agirmos da forma que agimos em nossas próprias vidas.

 

“É fundamental examinar meus sentimentos na minha relação com o outro, antes mesmo de agir. O que eu estou realmente querendo, sentindo, o que é que eu trago para essa relação? Não é só a ação que exige coragem, mas esse mergulho interno, esse olhar no espelho também” 

Elis Motta, no E Agora, Josefina?

 

Por isso, no Instituto NOW, entendemos que, além de ser uma competência-chave para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional, o autoconhecimento é fundamental para que possamos  ativamente ajudar na despolarização das nossas conversas. Nós encaramos essa competência socioemocional como um passo básico no processo de construção de pontes (ao lado da empatia, da atenção plena e de tantas outras competências relacionais que servem a esse processo).

O autoconhecimento também é essencial na Comunicação Não-Violenta, pois é conhecendo nossas necessidades, comportamentos e atitudes que compreendemos o impacto que provocamos nas outras pessoas e em nós mesmas. Quanto maior o autoconhecimento, mais habilidade para identificar nossos padrões de comunicação e evitar embates violentos e que impedem uma conexão autêntica.

Começamos esse artigo perguntando o que a compaixão feroz e o autoconhecimento têm a ver com a (despolarização) e esperamos que até aqui tenha ficado mais evidente tanto o porquê, quanto o como eles podem funcionar a favor da construção de pontes e conexões genuínas com as pessoas que pensam muito diferentes de nós.

A capacidade de sermos honestas com nós mesmas e de nos aceitarmos como somos (ou como estamos) é um  fundamental para que consigamos exercitar a “compaixão feroz”, o que deve levar a um mundo menos injusto, desigual, violento e polarizado.