Nem monoglotas, muito menos alienados

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Resultado do Brasil no PISA deve direcionar nosso olhar para  especificidades culturais e socioeconômicas

Menos conhecimento sobre questões globais, pouco contato com pessoas de outros países e falantes de um único idioma. Esses são os resultados referentes aos estudantes brasileiros em uma das avaliações da educação básica de maior reconhecimento mundial, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Longe de deduzir que ser monoglota é algo ruim ou que somos alienados por não termos conhecimentos de questões multiculturais, tais resultados devem nos fazer pensar sobre a especificidade do Brasil frente aos quase 70 países envolvidos no programa, conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com estudantes de 15 anos e realizados a cada três anos.

Essa foi a primeira vez que o PISA considerou o nível de “competências globais” dos países (falamos sobre isso nosso podcast E Agora, Josefina?), e o Brasil não ficou em uma boa posição.

Especialistas têm desenvolvido estudos sobre o desempenho dos países nórdicos e outros casos notáveis para compreender os elementos que possibilitaram esses resultados, mas de maneira geral veem como ineficientes as tentativas de replicar práticas de países que obtêm bons desempenhos. Afinal, os desafios para uma educação global são ainda mais difíceis para países com elevada taxa de desigualdade socioeconômica, como é o nosso caso.

Enquanto a média nos países ricos é de cerca de um computador por estudante, no Brasil são dez alunos por equipamento. Essa capacidade de infraestrutura digital das escolas ganha importância ainda maior no momento em que o mundo enfrenta uma crise sanitária global sem precedentes e que impõe a criação de soluções virtuais.

Além desse aspecto estrutural, o PISA revela que a mentalidade global dos estudantes (e, consequentemente, de cada país) também é afetada pelas atitudes do professor e pelas atividades dentro e fora das salas de aula. Poucos professores relataram ter recebido treinamento em ensino em ambientes multiculturais ou multilíngues. Aqui vemos um grande potencial de oferecer oportunidades de desenvolvimento profissional adequado.

Os resultados do PISA mostram ainda que os sistemas educacionais que têm mais sucesso em preparar os jovens para prosperar em circunstâncias interconectadas fazem cinco coisas :

  • são baseados em currículos que valorizam a abertura para o mundo,
  • fornecem um ambiente de aprendizagem positivo e inclusivo,
  • oferecem oportunidades de se relacionar com pessoas de outras culturas dentro e fora da sala de aula, inclusive por meio de intercâmbios internacionais e programas virtuais,
  • incorporam atividades de aprendizagem participativas baseadas em acontecimentos do mundo real,
  • têm professores que estão preparados para facilitar a competência global e que refletem uma apreciação pelos outros em suas interações do dia a dia com os alunos.

Será esse um caminho possível para o sistema de ensino brasileiro?